Alagoana Marivana Oliveira ganha o bronze no arremesso de peso

Medalhista no arremesso de peso não tinha dinheiro para usar botas ortopédicas e caía ao tentar se locomover na ponta dos pés. Esporte a permitiu conhecer o pai

No arremesso do peso feminino da classe F35, o Brasil garantiu mais um bronze. Ouro na prova nos Jogos Parapan-Americanos Toronto 2015 e terceira colocada no Mundial do mesmo ano, a alagoana Marivana Oliveira garantiu seu lugar no pódio com a marca de 9,28m, a melhor de sua carreira.

Descrição da imagem: Marivana Oliveira ergue a bandeira do Brasil após bronze (Foto: Fernando Maia/MPIX/CPB)
Descrição da imagem: Marivana Oliveira ergue a bandeira do Brasil após bronze (Foto: Fernando Maia/MPIX/CPB)

O ouro foi para a chinesa Jun Wang, que quebrou o recorde mundial com 13,91m, e a prata ficou com a ucraniana Mariia Pomazan, que arremessou a 13,59m.

Vim nessa Paralimpíada que nem no Mundial de Doha (em 2015). Eu sabia das minhas condições, da qualidade das minhas adversárias. Vim para fazer meu melhor. Meu melhor foi bronze, e estou muito feliz.

De fato, agora não faltam razões para sorrir. Mas nem sempre foi assim.  Nascida em uma família humilde em Maceió, capital de Alagoas, Marivana teve uma infância difícil. Seus pés não tinham flexibilidade e ficavam estáticos como se estivessem sempre esticados. O problema poderia ter sido corrigido com o uso de botas ortopédicas, mas estas eram muito caras para a família. Sem o tratamento adequado, o quadro se agravou.

Marivana precisou passar por três cirurgias no total, todas conseguidas com a ajuda da avó, enfermeira. A falta de recursos, porém, atrapalhava o tratamento. Sem dinheiro para pagar um fisioterapeuta, era a própria mãe quem tentava, de forma improvisada, estimular o movimento das articulações do calcanhar.

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– Lembro que minha mãe fazia fisioterapia comigo em casa, quando eu tinha uns 5 ou 6 anos. E usava muito gesso, sofria muito com isso. Eu caía muito. Hoje fico em pé normal, mas antigamente andava tipo bailarina, de ponta de pé. Na última cirurgia o médico conseguiu botar meu calcanhar no chão. Foi aí que consegui fazer o tratamento. Se eu tivesse botado as botas eu tinha conseguido andar, só que não tinha verba. Mas depois com sete anos comecei a andar, comecei a ir à escola. Minha vida começou, na verdade, aí.

Quando conheceu o atletismo, mais precisamente o arremesso de peso, Marivana passou a ter novas ambições e percebeu que poderia ir muito além. No começo, treinava em Maceió, mas sentia que precisava de uma estrutura melhor para evoluir. Através de um amigo jornalista, foi apresentada a Rosinha, campeã no peso e no lançamento de disco em Sydney. A veterana a ajudou e incentivou a mudança para o Rio de Janeiro, onde treina até hoje.

Com o esporte e a visibilidade veio a oportunidade de fazer um novo apelo através da imprensa. A atleta, na época com 22 anos, não conhecia o pai. Contou a história em uma reportagem, e meses depois a estratégia surtiu efeito.

– Eu conheci meu pai em 2012. Em 2011 deu entrevista, falei que tinha curiosidade de conhecer meu pai. Mas minha mãe não me falou algumas coisas que eu não sabia. Meu pai não sabia que eu tinha nascido e ficado viva. Minha mãe mentiu para ele para não dar problema com meu avô. Meu pai só descobriu quando passou na televisão, viu pelo meu nome. Parece história de pescador. (risos) Minha mãe ficou com medo, receio. Me dou bem com ele, só não tenho convivência, porque moro aqui no Rio.

Foi justo na capital fluminense que Marivana alcançou, nesta quinta-feira, a maior glória da carreira. Bronze no Mundial de Doha, no ano passado, ela repetiu a colocação na Paralimpíada. Estava tão confiante no resultado que, ao montar a mochila que levaria ao Engenhão, separou com carinho o uniforme para usar na premiação.

– Eu acreditava, sabia que era só fazer o que treinei que daria pódio.

Ao fim de seis arremessos, a previsão se cumpriu. Marivana, a menina que até os sete anos não andou, desta vez caminhou orgulhosa para receber sua medalha. Um bronze reluzente.

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